Depressão e ansiedade aumentam o risco de doenças cardiovasculares
A relação entre transtornos mentais e doenças cardiovasculares ganha novos contornos com a publicação de um estudo na revista Circulation: Cardiovascular Imaging, em dezembro. A pesquisa reforça que a associação entre depressão, ansiedade e maior risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC) vai além de fatores comportamentais, envolvendo mecanismos biológicos capazes de impactar diretamente o funcionamento do coração.
O trabalho analisou dados de mais de 85 mil participantes do Mass General Brigham Biobank, acompanhados por pouco mais de três anos. Nesse período, cerca de 3,6% dos voluntários registraram eventos cardiovasculares adversos, como infarto e AVC. Os resultados apontaram que indivíduos com diagnóstico de depressão apresentaram risco significativamente maior dessas ocorrências — índice que se elevava ainda mais quando o quadro estava associado à ansiedade.
De acordo com especialistas, o achado reforça a necessidade de vigilância clínica ampliada. “Ao identificar múltiplas comorbidades psiquiátricas, a atenção à saúde cardiovascular deve ser redobrada, com possível encaminhamento para avaliação cardiológica e reforço das mudanças no estilo de vida”, afirma o psiquiatra Elton Kanomata, do Hospital Israelita Albert Einstein.
Embora já se saiba que depressão e ansiedade figuram entre fatores de risco para doenças cardiovasculares — ao lado de obesidade, sedentarismo e estresse crônico —, o estudo aprofunda a compreensão dos processos fisiológicos envolvidos. Segundo Kanomata, esses transtornos podem provocar alterações hormonais, estimular processos pró-inflamatórios e desregular o sistema de resposta ao estresse. Além disso, tendem a favorecer hábitos prejudiciais, como redução da atividade física e aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, ampliando a suscetibilidade a eventos cardíacos.
Mecanismos biológicos
Para investigar os mecanismos por trás dessa associação, parte dos participantes foi submetida a exames de tomografia por emissão de pósitrons combinada à tomografia computadorizada (PET/TC), método que permite avaliar tanto a atividade metabólica quanto as estruturas anatômicas do organismo.
A tomografia por emissão de pósitrons identifica áreas com maior consumo de glicose, o que pode indicar aumento da atividade neural ou inflamação. Já a tomografia computadorizada fornece imagens detalhadas que possibilitam localizar com precisão as regiões analisadas. No contexto do estudo, os exames foram utilizados para observar o funcionamento cerebral em situações de estresse — procedimento que, segundo o psiquiatra, não integra a rotina clínica por envolver custos elevados e exposição a radiação.
Os resultados mostraram que indivíduos com depressão ou ansiedade apresentavam maior atividade da amígdala cerebral, estrutura relacionada ao processamento do medo e do estresse. A hiperativação dessa região pode estimular de forma persistente o sistema nervoso autônomo, elevando a liberação de hormônios do estresse e mantendo o organismo em estado contínuo de alerta.
Essa ativação prolongada, explicam os pesquisadores, pode comprometer gradualmente o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos. O estudo também identificou menor variabilidade da frequência cardíaca nesses pacientes, indicador de que o órgão está menos apto a se adaptar às demandas do corpo, refletindo maior predominância do sistema nervoso simpático — responsável pela resposta de “luta ou fuga”.
Outro achado relevante foi o aumento dos níveis de proteína C-reativa (PCR), marcador sanguíneo de inflamação. Concentrações elevadas da substância estão associadas a maior risco de infarto e AVC, sugerindo que depressão e ansiedade podem contribuir para um estado de inflamação sistêmica.
Embora esses mecanismos já fossem objeto de investigação, o estudo destaca como eles se interconectam, compondo um ciclo que pode acelerar o adoecimento cardiovascular. Para os autores, a identificação e o tratamento precoces dos transtornos psiquiátricos devem ser encarados também como estratégia preventiva em cardiologia.
A conclusão é direta: cuidar da saúde mental pode representar, simultaneamente, uma medida de proteção ao coração.
Fonte: Guia Muriaé, com informações da Folha de S.Paulo










