Cearenses produzem remédio à base de murici com potencial contra inflamações ligadas ao câncer
Pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade de Fortaleza (Unifor) desenvolveram uma composição à base das folhas do murici (Byrsonima crassifolia) que apresenta potencial para o desenvolvimento de um novo fitoterápico destinado ao tratamento de dor e inflamação gastrointestinal.
A equipe já protocolou um pedido de patente da tecnologia junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O processo, entretanto, ainda está em análise e não representa a concessão definitiva da patente.
Os estudos realizados até o momento apontaram que o extrato possui propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e antioxidantes. Também foram observados indicadores de baixa toxicidade nos testes pré-clínicos realizados com peixes-zebra, organismo utilizado em pesquisas biomédicas.
Tecnologia combina ação contra dor e inflamação
Segundo os pesquisadores, um dos diferenciais da composição é a possibilidade de atuar simultaneamente sobre a dor e sobre o processo inflamatório relacionado a substâncias produzidas por bactérias no trato gastrointestinal.
A pesquisa também identificou entre os componentes das folhas uma substância com atividade semelhante à da morfina em determinados experimentos. Os pesquisadores, contudo, ressaltam que o resultado indica potencial farmacológico, e não que o murici possa substituir a morfina ou outros medicamentos.
Além das aplicações gastrointestinais, os pesquisadores avaliam que os resultados podem abrir novas linhas de investigação sobre doenças relacionadas a processos inflamatórios crônicos.
Pesquisa teve origem em conhecimento indígena
O estudo começou a partir do contato dos pesquisadores com o povo indígena Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, no Ceará.
A comunidade realiza anualmente a Festa do Murici e do Batiputá, celebração relacionada à colheita dos frutos e à preservação de práticas culturais e conhecimentos tradicionais.
Embora o fruto do murici já fosse utilizado pela comunidade, os pesquisadores decidiram investigar o potencial de outras partes da planta, como as folhas e a casca.
A iniciativa também reforça o interesse científico pela biodiversidade da Caatinga. De acordo com os pesquisadores, espécies adaptadas às condições de calor e seca do bioma podem produzir compostos químicos com potencial para aplicações farmacológicas.
Estudos ainda estão em fase pré-clínica
O desenvolvimento da tecnologia começou em fevereiro de 2025 e atualmente envolve etapas como padronização das dosagens, caracterização química do extrato e realização de estudos pré-clínicos.
Os experimentos com peixes-zebra representam uma das etapas iniciais. A equipe ainda pretende realizar testes em outros modelos animais antes de avançar para ensaios clínicos com seres humanos.
Somente após as etapas de pesquisa, avaliação de segurança, comprovação de eficácia e aprovação regulatória o produto poderá eventualmente chegar ao mercado.
Portanto, embora os resultados iniciais sejam considerados promissores pelos pesquisadores, o fitoterápico ainda não está disponível para tratamento de pacientes e não deve ser considerado um medicamento comprovadamente eficaz para doenças gastrointestinais.
Fonte: Guia Muriaé











