Exames de sangue para detectar câncer precoce ganham espaço
Exames de sangue que prometem identificar múltiplos tipos de câncer antes mesmo do aparecimento de sintomas vêm ganhando espaço nos Estados Unidos, embora ainda sejam classificados como experimentais e não contem com a aprovação da Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador norte-americano. O principal exemplo é o teste Galleri, comercializado desde 2021 e que, segundo a empresa de biotecnologia Grail, já foi realizado por mais de 400 mil pessoas no país.
A proposta do Galleri é analisar fragmentos de DNA tumoral circulantes na corrente sanguínea em busca de indícios de diferentes neoplasias. De acordo com a fabricante, o exame seria capaz de apontar sinais de até 50 tipos de câncer, funcionando como uma ferramenta inicial para direcionar investigações mais detalhadas. No entanto, a aplicação prática dessa tecnologia ainda levanta dúvidas na comunidade médica.
Para o oncologista Diogo Sales, do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia, a ideia de um teste multicâncer de detecção precoce é promissora, mas carece de comprovação científica suficiente para uso rotineiro. “Os tumores liberam no organismo assinaturas genéticas e proteínas que, em teoria, podem permitir diagnósticos antecipados. O conceito é excelente, mas, neste momento, não há evidências robustas que sustentem sua adoção ampla na prática clínica”, avalia.
Apesar de existirem outros exames semelhantes em fase de pesquisa, o Galleri é o único que alcançou escala comercial. O procedimento envolve a coleta de sangue, que é enviada para um laboratório especializado nos Estados Unidos, com custo aproximado de US$ 950 por paciente. Ainda assim, especialistas alertam para limitações importantes, como a ocorrência significativa de resultados falso-positivos e falso-negativos, além da incapacidade de identificar todos os tipos de câncer.
Outro ponto crítico é a ausência de um marcador universal capaz de rastrear diferentes tumores. Cada tipo de câncer produz substâncias específicas, e ainda não está claro quais delas o exame detecta com maior precisão ou quais estariam associadas a um real benefício em termos de aumento de cura e sobrevida.
Há também o risco de uma falsa sensação de segurança. Estudos em andamento, como um ensaio clínico randomizado no Reino Unido, indicam que a taxa de detecção ficou abaixo do esperado e que apenas cerca de 60% dos resultados positivos se confirmaram em exames posteriores. Além disso, nem todos os tumores liberam biomarcadores desde as fases iniciais, o que pode levar pessoas a negligenciar métodos tradicionais de rastreamento ao receberem um resultado negativo.
Segundo Sales, outro aspecto que merece atenção é o impacto real desses testes na redução da mortalidade. “Muitos estudos divulgam taxas de detecção, mas o que realmente importa é se o exame diminui o número de mortes por câncer. A detecção precoce costuma salvar vidas, mas isso não se aplica a todos os tipos de tumor”, ressalta. Em algumas situações, intervenções antecipadas podem comprometer a qualidade de vida sem ganhos significativos de sobrevida, como já observado em debates sobre o rastreamento universal do câncer de próstata.
Além das implicações clínicas, resultados inesperados podem gerar ansiedade, levar a investigações desnecessárias e até a procedimentos invasivos, além de aumentar custos tanto para os pacientes quanto para os sistemas de saúde.
Apesar das restrições, há cenários em que exames como o Galleri podem ter utilidade futura. Tumores de pâncreas e ovário, por exemplo, ainda não contam com métodos eficazes de rastreamento precoce, e os testes mostraram desempenho mais promissor nesses casos. “No futuro, é possível que essa tecnologia seja direcionada apenas para situações em que realmente ofereça maior eficiência e benefício clínico”, conclui o oncologista.
Fonte: Guia Muriaé, com informações do Tribuna de Minas










