Home / Colunas / Carlos Cerqueira / Coluna do Carlos Cerqueira – O Líquido da Vida

Coluna do Carlos Cerqueira – O Líquido da Vida

A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do Ministério da Saúde contemplou inicialmente cinco terapêuticas para serem adotadas no Sistema Único de Saúde (SUS), já descrevemos nas últimas edições sobre quatro delas: Fitoterapia, Homeopatia, Medicina Tradicional Chinesa e Medicina Antroposófica. Agora finalizaremos com o Termalismo/Crenoterapia.

Termalismo vem do grego “thermai” ou do latim “thermae” e significa utilização de banhos quentes na melhoria da saúde. Crenoterapia vem do grego “krenos” e designa fonte ou manancial referindo-se ao uso terapêutico das águas mineromedicinais.




Os primeiros registros existentes há milênios, remontam aos caldeus e indianos. Na Grécia, os balneários eram chamados de Asclepias, de Asclépio, deus da medicina.

As indicações e tratamentos com águas não só na ingestão mas na forma de banhos são compatíveis com nosso território, visto o Brasil ter um grande potencial hídrico, abrigando várias instâncias termais (fontes naturais de águas aquecidas) e hidrominerais.

O tratamento pela água sob suas diversas formas e temperaturas também pode ser denominado de hidroterapia (do grego hydor=água e therapeia=tratamento), termo que ficou muito difundido no século XIX, com Sebastian Kneipp, ao afirmar ter se curado de uma tuberculose com o poder da água, criando diversos usos terapêuticos, desde tomar uma colher de sopa de hora em hora para o combate da prisão de ventre até o tratamento de doenças músculo-esqueléticas e do sistema nervoso através de banhos.




Os diferentes casos devem ser analisados por profissional competente para concluir se deve usar banhos quentes e/ou frios, visto que podem ter restrições. Quando frio, excita fortemente a sensibilidade periférica, gerando reflexos até os centros corticais, esse estímulo faz com que o sistema nervoso melhore seu funcionamento produzindo na pessoa uma sensação de bem-estar. Usado quente, como fazem os japoneses em seus ofurôs (tipo de banheira na temperatura entre 36 e 40ºC), estimula a circulação sanguínea, promove uma limpeza da pele e grande descontração muscular.

O médico e escritor Jorge Adoum recomendava uma ducha nasal (sobre o nariz) fria, para aliviar dores de cabeça, evitar pólipos no nariz e aftas na boca, segundo ele, tomar bastante água proporciona uma depuração interna, “limpa” os rins e intestinos e cura-se prisão de ventre, causa da maioria das enfermidades, “o homem que evacua diariamente regula também a sua mente”, dizia.




O livro “A Saúde Brota da Natureza” cita outros conselhos úteis: “nos problemas hepáticos é bom que se beba amornada; nunca se deve beber água junto com as refeições, porque dilui o ácido clorídrico do estômago retardando a digestão; ingerir gelada com o corpo quente é danoso à saúde; tomar pequenos goles a cada poucos minutos trata problemas digestivos”.

Vale lembrar que, de toda a água existente no mundo, apenas 3% é viável ao consumo humano, e deste valor, apenas 0,01% está disponível para uso imediato, o que demonstra a necessidade de evitar o seu desperdício. Ainda mais neste ano de 2015, em que presenciamos uma escassez de chuvas e consequentemente, uma queda na produção de muitos alimentos e dificuldade no abastecimento de água em várias cidades.

Todos nós sabemos o quanto este líquido é indispensável, basta lembrar que se pode aguentar até um mês sem alimentar, mas não muito mais que um dia sem se hidratar e que foi justamente a partir do aparecimento dela no planeta, que se tornou propícia a existência de formas de vida. Assim como ele, cerca de 70% do nosso corpo é composto desta singular substância e durante a gestação até o nascimento ficamos envolvidos pelo líquido amniótico, que inicialmente é apenas água proveniente da mãe.

Um recém-nascido possui em seu corpo muito menos acidez do que um idoso, a alcalinidade parece estar relacionada com o aumento da estimativa de vida e a água pode contribuir nisso, numa comunidade do Chile, por exemplo, cientistas constataram o que garantia a longevidade de seus habitantes, a maioria com mais de 100 anos: o fato dos recursos hídricos naturais ali serem extremamente alcalinos.

Este é um fator que agora está sendo bastante discutido, o pH (potencial de hidrogênio) desejável acima de 7, ou seja, alcalino. Infelizmente muitas águas são ácidas, inclusive grande parte das minerais comercializadas, o que pode ser verificado no rótulo da embalagem. Até quando provenientes de mina podem ser muito ácidas dependendo da sua fonte.

A água alcalina é importante porque reações fisiológicas do corpo tendem a gerar metabólitos ácidos, o que força o organismo a mobilizar suas atividades para atingir a faixa ideal, a ingestão de uma água de boa qualidade evita o desgaste do corpo para preservar sua homeostase, ou seja, o equilíbrio saudável. O valor hídrico está, além da sobrevivência e manutenção das funções fisiológicas, também no uso medicinal e no aumento da longevidade.

Autor: Carlos Cerqueira Magalhães – Farmacêutico, M.e em Ciências Farmacêuticas (Produtos Naturais Bioativos) pela UFJF


Confira também

Coluna do Carlos Cerqueira – Caminho de aromas – 2ª parte

A literaturas mais antigas da humanidade já citavam as plantas aromáticas. Na Índia, no livro …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Experimentoe o Novo Livre