Zuenir e Mauro Ventura participam de bate-papo com muriaeenses

Em uma noite de fascínio para os amantes da literatura, os jornalistas e escritores Zuenir e Mauro Ventura contaram histórias de vida e da carreira na noite de quarta-feira (24), em Muriaé. Esbanjando simpatia e bom humor, pai e filho levaram bom público ao Teatro Zaccaria Marques e conversaram durante cerca de duas horas com os participantes.

Desenvolvido dentro do Programa Grandes Escritores, o evento “Encontro de Gerações” foi trazido para a cidade pela Prefeitura, por meio da Fundarte, para integrar a programação da I Feira de Literatura de Muriaé.

Se Mauro fazia sua primeira visita à cidade (no que chamou de “conhecer as origens”, já que Zuenir é nascido em Além Paraíba, cidade também situada na Zona da Mata de Minas Gerais), seu pai participou já pela segunda vez de um bate-papo com os muriaeenses. A primeira ocasião foi em 2007, quando palestrou na Biblioteca Municipal.

Presente naquele encontro, o jornalista e empresário Valdir Souza voltou a prestigiar o escritor. “Foi muito bom poder conhecer detalhes da vida e do trabalho de um personagem tão importante da imprensa brasileira. A vida do Zuenir Ventura é riquíssima, e daria para ficar várias horas ouvindo suas histórias”, afirma. “Foi interessante também a presença do Mauro, compartilhando detalhes sobre apurações jornalísticas que tiveram grande impacto na sociedade”, completa.

O Programa Grandes Escritores é desenvolvido pela Amar Produções Artísticas e percorre diversas cidades da região, em encontros mediados pelo coordenador da iniciativa, Amauri Rocha. Antes de Muriaé, o evento passou por Barbacena, Visconde do Rio Branco, Ubá, Cataguases, Ponte Nova e Viçosa. A próxima atividade será em Juiz de Fora, no próximo dia 30.

Os palestrantes

Com mais de 60 anos de profissão, Zuenir Ventura passou pelos principais periódicos do Rio de Janeiro e, com uma série de reportagens sobre o assassinato do ambientalista Chico Mendes, venceu os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Jornalismo. É colunista do jornal “O Globo”, autor de seis livros (dentre eles, “1968 – O Ano que Não Terminou”) e membro da Academia Brasileira de Letras.

Mauro Ventura, por sua vez, atua como jornalista há mais de 30 anos e também escreve para “O Globo”, onde é responsável pela coluna “Dois Cafés e a Conta”. Em sua carreira, se destacou com o livro “O Espetáculo Mais Triste da Terra”, com o qual conquistou em 2012 o Prêmio Jabuti, a principal honraria literária do país.

Confira alguns temas que foram tratados por Zuenir e Mauro Ventura em Muriaé:

Carinho recebido na cidade

“Quando cheguei ao hotel, a recepcionista me lembrou que eu já havia estado aqui em 2007. E eu estou sendo tão bem tratado aqui, que já resolvi: quando eu me aborrecer no Rio, vou vir para Muriaé para me sentir bem novamente.” (Zuenir)

Carreira

“Tudo na minha vida aconteceu por acaso. Tornei-me jornalista por acaso, escritor por acaso. Acho que até nascer eu nasci por acaso.” (Zuenir)

“Por eu ser filho de quem sou, muitos acreditam que o jornalismo foi o meu caminho natural na escolha da profissão, mas as coisas não foram bem assim. Meu pai é jornalista e minha mãe também, então eu queria fugir de comparações e de questionamentos. Cheguei a cursar Engenharia Elétrica quase até o fim. Acabei abandonando o curso e cheguei a pensar em prestar vestibular para outras áreas. Mas finalmente, já com 20 e poucos anos, resolvi seguir o que estava no sangue e optar pela carreira jornalística.” (Mauro)

Jornalismo

“Cada vez mais, os jornalistas buscam as informações na internet e vão para as entrevistas apenas para pegar aspas, ou seja, depoimentos dos entrevistados. A rede online é muito importante, mas ela não deve substituir o trabalho de apuração em campo. O feeling e o tato do repórter para colher informações junto às suas fontes são fundamentais para se produzir reportagens de qualidade.” (Zuenir)

“No jornalismo investigativo, muitas vezes temos que fazer concessões em nome da nossa segurança. Para fazer a reportagem sobre o ‘Tribunal do Tráfico’, que fala sobre um garoto que seria condenado pelos traficantes por ter roubado dentro da favela, mas que acabou tendo sua vida preservada graças à influência de um pastor, eu precisei obedecer a algumas exigências. Uma delas, por exemplo, era a de não identificar em momento algum o local onde os fatos ocorreram.” (Mauro)

Fake news

“O combate às chamadas fake news talvez seja o maior desafio dos jornalistas atualmente. Percebo que muitas pessoas estão mais interessadas em espalhar algo fictício, mas que represente o que elas julguem ser o correto, em vez daquilo que realmente é verdadeiro. Nos meus grupos de WhatsApp, eu tento várias vezes alertar sobre algo improcedente, mostrar que tal assunto não é bem daquela forma, mas nem sempre consigo ter sucesso nessa tarefa. “(Mauro)

“Uma amiga jornalista anteviu que as fake news se tornariam cada vez mais presentes na sociedade e fundou há alguns anos a Agência Lupa, que busca checar a veracidade das informações. E ela verificou que, das 40 notícias mais divulgadas em redes sociais ao longo do primeiro turno das eleições, apenas quatro eram verdadeiras.” (Mauro)

Livros

“Eu comecei tarde no jornalismo e, da mesma forma, comecei tarde também na literatura. Cheguei a iniciar projetos de mais de 20 livros, mas nunca dei andamento, pois achava que as pessoas não se interessariam em ler aquelas histórias. Até que, em 1995, o Rio de Janeiro estava passando por uma epidemia muito grande de violência, relacionada principalmente a sequestros. Apurei essa questão com cuidado durante mais de um ano, mas o material foi muito mal aproveitado pelo jornal no qual eu trabalhava. Deixei todo o conteúdo guardado em meu armário até 1998, quando a cidade finalmente conseguiu vencer aquele problema, e eu enxerguei a oportunidade de compilar aquele material em um livro. Para minha surpresa e infelicidade, ao chegar na redação e procurar por aqueles arquivos, fui informado de que meu armário havia sido cedido para outro repórter e que toda aquela ‘papelada velha’ havia sido jogada fora. Em desespero, fui revirar a caçamba de lixo do jornal, mas foi impossível encontrar os textos e documentos em meio a toneladas de papel.” (Mauro)

“O livro ‘O Espetáculo Mais Triste da Terra’ fala sobre o incêndio de um circo em Niterói, ocorrido em 1961 e que matou mais de 500 pessoas, a maior parte formada por crianças. E esse episódio uniu várias figuras distintas, que dificilmente teriam pontos em comum: histórias dão conta de que o Profeta Gentileza, um antigo personagem das ruas do Rio, perdeu toda a família na tragédia; o principal cirurgião plástico do país, Doutor Ivo Pitanguy, relatou que o incêndio foi um divisor de águas para a especialidade dele, que finalmente passou a ser encarada como questão de saúde em vez de estética; uma tia minha ia com meus primos para aquela apresentação, mas desistiu em cima da hora, ao passo que alguns de seus vizinhos foram e todos morreram… e muitos me perguntam por que optei por escrever sobre algo tão trágico. Mas o objetivo foi mostrar pontos que, de uma forma ou de outra, levaram àquele evento catastrófico. O livro foi reconhecido e premiado, mas falhei na minha intenção, pois poucos anos depois ocorreu o incêndio da Boate Kiss, no Sul, com vários aspectos em comum com aquele do circo.” (Mauro)

Fonte: PMM


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