Mulheres fortalecem a sucessão familiar e impulsionam a cafeicultura em Espera Feliz
Celebrado este mês, o Dia Mundial do Café ganha, a cada ano, novos significados no Brasil, país que lidera a produção e exportação global do grão, com cerca de 40% da oferta mundial. Em Minas Gerais, responsável por aproximadamente metade da produção nacional e com mais de 460 municípios produtores, a cafeicultura vai além da economia: é cultura, identidade e herança familiar. E, cada vez mais, essa herança tem sido conduzida e reinventada por mulheres.
Cerca de 123 mil mineiros são cafeicultores e encontram na sucessão familiar um dos seus principais desafios e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de renovação. Nesse contexto, a presença feminina tem se consolidado como força estratégica para garantir continuidade, inovação e sustentabilidade no campo. Na região das Matas de Minas, conhecida pela produção naturalmente sustentável e predominância da agricultura familiar, muitas histórias corrobora o potencial feminino na continuidade e transformação dos negócios.
No Sítio Vó Emília, em Espera Feliz, essa realidade é histórica. Há quase 100 anos, a propriedade é conduzida por mulheres da mesma família. Desde 2023, as irmãs Viviane e Luciane da Silva de Oliveira assumiram a liderança do negócio, representando a quarta geração de cafeicultoras. A trajetória das duas ganhou força em 2018, quando decidiram transformar a herança em um projeto de vida estruturado. Apostando em conhecimento, qualidade e agroecologia, criaram a marca Sempre-Vivas, símbolo de resistência e identidade feminina.
Com o apoio do Sistema Faemg Senar, por meio de cursos, do Programa Gestão com Qualidade em Campo e do ATeG Café+Forte, modernizaram a produção, renovaram lavouras, reduziram custos e passaram a agregar valor ao café, alcançando maior rentabilidade. Hoje, o produto já possui o selo Certifica Minas e está em processo de certificação de produção sem agrotóxicos pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA).
A sucessão familiar também passa pelo olhar das novas gerações. Em Simonésia, a jovem Camille Moura, de 23 anos, decidiu mudar os rumos da própria trajetória ao deixar o trabalho em uma loja agropecuária na cidade para retornar à propriedade da família.
Há seis meses de volta ao campo, ela se dedica à gestão do negócio, contribuindo especialmente na área contábil. O objetivo é fortalecer a marca de cafés especiais, Arraiá do Sol, criada em 2022, e ampliar a presença no mercado. “Quero ajudar a fazer a marca crescer”, resume.
Em Manhumirim, Ana Carolina Malta, neta de um dos primeiros exportadores de café orgânico do Brasil, representa a quinta geração de uma família cafeicultora e enfrentou o desafio de trocar a Engenharia de Produção pela cafeicultura e luta para manter a propriedade com a família organizando as finanças. “Com a venda dos cafés especiais estou quitando uma dívida do meu avô e impedindo que a propriedade seja leiloada”, explicou.
Carol, como é conhecida, contou que não se identificava com a atividade até encontrar, por meio do Sindicato dos Produtores Rurais e do Sistema Faemg Senar, a oportunidade de se capacitar. A partir daí, transformou o café especial em paixão e negócio. Criadora da marca Vidas Gerais Café, lançada em 2018, ela investiu em formação técnica e gestão para consolidar seu espaço no setor.
Protagonismo coletivo e redes de apoio
Se dentro das propriedades as mulheres assumem cada vez mais protagonismo, fora delas a organização coletiva também tem fortalecido essa presença. É o caso da cafeicultora Dulcineia Prado, presidente da Associação de Mulheres do Café das Matas de Minas e Caparaó (AMUC), que atua diretamente no incentivo, capacitação e valorização de produtoras de 14 municípios, com mais de 50 associadas.
“A mulher sempre esteve presente na cafeicultura, mas nos últimos anos temos mostrado mais nossa representatividade. Hoje desempenhamos um papel fundamental, estamos cada vez mais envolvidas com novas tecnologias e, especialmente com a produção de cafés de qualidade. Quando se fala em café de especialidade, se fala de mulher”, destaca.
Segundo Dulcineia, as associações têm papel essencial nesse processo. “São espaços de fortalecimento, pertencimento e apoio. É onde trocamos experiências, fazemos capacitações, trabalhamos autoestima. São histórias que inspiram outras histórias. Essa união é muito importante”.
Ela também chama atenção para o papel feminino na sucessão familiar. “A mulher carrega a família junto. Desde cedo, contribui para relações mais saudáveis e para que todos entendam a propriedade como uma empresa. A mulher trabalha diretamente para o sucesso da família no campo”, finalizou.
Fonte: FAEMG











