Exame de sangue capaz de identificar sinais de mais de 50 tipos de câncer chega ao Brasil
Teste Galleri é destinado a pessoas assintomáticas com 50 anos ou mais e deve complementar, e não substituir, os exames de rastreamento já recomendados
Um exame de sangue desenvolvido para identificar sinais associados a mais de 50 tipos de câncer passou a ser oferecido no Brasil. Chamado Galleri, o teste de detecção precoce multicâncer é destinado principalmente a pessoas assintomáticas com 50 anos ou mais e funciona como uma ferramenta complementar aos métodos tradicionais de rastreamento, como mamografia e colonoscopia.
O exame não é indicado para gestantes nem para pessoas que estejam em tratamento ativo contra o câncer. Segundo o oncologista Fernando Moura, gerente médico do Centro de Multiômica do Einstein Hospital Israelita, a tecnologia não substitui os protocolos já existentes para os tipos de câncer que possuem rastreamento recomendado.
Atualmente, os principais programas de rastreamento de rotina estão voltados para cânceres de mama, colo do útero, colorretal, pulmão e próstata. O Galleri amplia a possibilidade de investigação para outros tumores que ainda não contam com estratégias formais de rastreamento populacional, incluindo os de pâncreas, fígado e ovário.
O teste é realizado a partir de uma coleta de sangue e procura alterações moleculares relacionadas à presença de células cancerígenas. Para isso, analisa fragmentos de DNA livre circulante e padrões de metilação, que são modificações químicas do DNA capazes de fornecer informações sobre a possível existência e localização de um tumor.
A tecnologia é diferente dos exames genéticos hereditários. Enquanto esses testes procuram identificar características transmitidas geneticamente que podem aumentar a predisposição ao câncer, o Galleri busca sinais moleculares que estejam presentes no organismo no momento em que a amostra é coletada.
De acordo com Moura, as características dos fragmentos de DNA tumoral variam conforme o local onde o câncer se desenvolve. Essa diferenciação permite ao teste apontar uma provável origem para o sinal identificado e direcionar a investigação médica.
Resultado positivo exige investigação complementar
Um resultado positivo no Galleri não significa, por si só, que o paciente tenha câncer. Quando o teste identifica um sinal suspeito, são necessários exames adicionais direcionados ao órgão ou região apontada para confirmar ou descartar a doença.
A orientação baseada nos estudos disponíveis é que o exame seja realizado anualmente. Em caso de resultado positivo, inicia-se uma investigação específica para determinar a origem do sinal e somente posteriormente é estabelecido o diagnóstico.
Da mesma forma, um resultado negativo não elimina completamente a possibilidade de existência de um câncer naquele momento e não impede que a doença se desenvolva posteriormente. Por isso, o acompanhamento médico e os exames de rastreamento já recomendados devem continuar normalmente.
Teste custa cerca de R$ 7 mil
Desenvolvido pela empresa norte-americana GRAIL Inc., o Galleri é disponibilizado no Brasil pela Gênesis Genomics, uma joint venture formada pelo Einstein Hospital Israelita e pelo Grupo Fleury. O exame tem custo aproximado de R$ 7 mil.
O preço é apontado como um dos principais obstáculos à ampliação do acesso à tecnologia. Atualmente, o teste não está disponível pelo sistema público de saúde nem pela saúde suplementar.
A expectativa, segundo o especialista, é que o custo diminua com a disseminação desse tipo de tecnologia e o amadurecimento do mercado.
Tecnologia busca ampliar diagnóstico precoce
A chegada do exame ocorre em um cenário de aumento da incidência de câncer no Brasil. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o país deverá registrar 781 mil novos casos por ano entre 2026 e 2028.
Uma das principais expectativas em relação ao Galleri é contribuir para a identificação de tumores antes que provoquem sintomas ou sejam diagnosticados em estágios avançados. Alguns tipos de câncer podem evoluir silenciosamente e apresentar sinais apenas quando a doença já está em estágio mais grave.
No caso do câncer de pâncreas, por exemplo, manifestações como a icterícia podem surgir quando o tumor já apresenta evolução significativa, reduzindo as possibilidades de tratamento com intenção curativa.
Estudos avaliaram aplicação do teste
A utilização do Galleri vem sendo analisada em grandes estudos internacionais. Uma pesquisa publicada em 2023 na revista científica The Lancet avaliou 6.662 pessoas com 50 anos ou mais, sem sintomas sugestivos de câncer, nos Estados Unidos. O trabalho analisou a viabilidade da utilização do teste em contexto clínico e sua capacidade de identificar sinais relacionados a tumores que não possuem rastreamento de rotina.
Outro estudo, realizado com 35.878 participantes nos Estados Unidos e no Canadá, apontou que a utilização do Galleri junto aos exames de rastreamento recomendados aumentou em 6,5 vezes a quantidade de cânceres recém-detectados. Entre os casos identificados após um resultado positivo, 71% foram diagnosticados entre os estágios I e III.
Uma terceira pesquisa, conduzida no Reino Unido com mais de 140 mil participantes, também indicou aumento na identificação de tumores nos estágios I e II, além de redução na proporção de diagnósticos em estágio IV e de atendimentos de emergência relacionados ao câncer.
Apesar dos resultados, o Galleri deve ser entendido como uma ferramenta adicional de investigação. A confirmação da doença depende de avaliação médica e de exames diagnósticos específicos, enquanto os métodos de rastreamento já estabelecidos continuam sendo necessários.
Fonte: Guia Muriaé, com informações do Jornal O Globo










