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Coluna do Henrique Varella – A gastronomia ajudando a pensar alternativamente

Quando éramos crianças íamos para a fazenda do vovô Fernando, em Eugenópolis, eu, meu irmão e nossos primos e primas – os de Muriaé e os que moravam no Rio e sempre que podiam vinham passear. E lá nos juntávamos às crianças que moravam na roça pra muito brincar.

Além de jogar bola no terreiro de café, andar de carroça de bode, brincar de correr e se espetar pelo mato, éramos agraciados pela comida de fogão à lenha – que tinha que ser servida na marmita – pés de jabuticaba e pelo o que eu mais gostava, pois além do sabor, era uma novidade para mim, o inusitado e delicioso pé de siriguela – que suportava o sol somente ele num campo de pasto; eu ficava pensando nos constantes avisos que recebia de toda família com o cuidado que era pra ter com o sol e começava a medir as diferenças entre mim e o meu universo.

Comendo naquela marmita o arroz, feijão, macarrão, os ovos e bifes acebolados dos peões, pensava que iria me tornar um homem forte e trabalhador igual aquela gente brava.




Na adolescência chega a hora de misturar as experiências da infância aos estímulos da puberdade. Então juntamos ao que somos os desejos de contestar, os pensamentos sobre sexo, a afirmação das diferenças, a experimentação e vivência das coisas e o compartilhamento dos sonhos, das camas, das paixões e dos ideais.

Bom, daí por diante a história muda um pouco e o sentido da vida e da felicidade passa tomar rumos às vezes inusitados. Levam-se anos e a gente começa a questionar nossas escolhas e os resultados que elas tiveram. Pelo menos algumas pessoas parecem se preocupar com isso.

Acho que a nossa história particular se confunde com as das outras coisas. Digo isso porque vejo um movimento tanto de pessoas buscando refletir o passado e repensar sua existência quanto vejo a gastronomia fazendo parte dessa construção e vivendo sentido semelhante.




Num outro momento vamos abrir espaço pra falar mais da gastronomia em seu contexto atual. Agora quero chamar atenção para o alcance que ela está tendo nesses movimentos que estão melhorando a vida de muita gente.

Quando as pessoas compreendem o quanto é fácil plantar um jardim e horta, compostar seu lixo e que preparar alguns pratos pode ser tão simples quanto prazeroso, descobrem um jeito de cuidar e melhorar a vida em todos os aspectos, evitando o padrão repetitivo e incorporando atitudes mais sanas.




Algumas das iniciativas que incorporam as tentativas de despertar e estimular a criatividade e a atitude positiva como as oficinas de arte, consciência corporal, além da gastronomia e jardinagem, buscam orientar o trabalho em grupo, trazendo responsabilidade e melhoria da comunidade de forma descontraída, porém contínua.

Plantar plantas comestíveis e frutas, tornar a comunidade mais bonita, mobilizar crianças e jovens e uni-los em torno de objetivos comuns e sustentáveis pode inclusive ter outra função muito importante para a sociedade atual, que é justamente incentivar formas de economia criativa.

Pessoas têm aproveitado as oportunidades para tornar-se artesãos, produtores locais e cozinheiros. Também com a ajuda da internet e de equipamentos de audiovisual ganham cada vez mais espaços, formas de expressão e troca de experiências.

A importância desse assunto se vê nos deslocamentos e na renda e na nova forma de viver, que atingem tanto as cidades grandes quanto a vida de quem está na zona rural. Homens e mulheres que além de sustentar a família e planejar o futuro a partir dessas novas ferramentas, estão construindo sua identidade profissional e pessoal através da gastronomia, digamos, criativa.

Autor: Henrique Caldas Varella – Chef de cozinha no Restaurante Oswaldinha Gastronomia, formado pela Faculdade Estácio de Sá – BH

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